terça-feira, novembro 14, 2006

Trabalhando na causa para evitar o efeito...

Olá pessoal!

Estava planejando postar mais algumas fotos da palestra do dia 23, mas vou abrir um parentêses para compartilhar algo com os colegas que nos honram com suas visitas aqui no BLOG.

Quando saio da empresa preciso atravessar uma ponte até chegar na estação de trem, normalmente faço esse trajeto em uma velocidade relativamente alta.

Hoje, não diferente de outros dias, saí da empresa em torno de 21:00 e fui caminhando rapidamente pela ponte, até porque queria passar na lavanderia e pegar o trem das 21:20. Quando estava na metade da ponte vi três jovens caminhando juntos, ao tentar passar por eles fui bloqueado, então anunciaram:

"Fica parado aê, é um assalto."

Calmamente (graças a Deus, nesse momento tive uma calma que não é minha) parei e segui o que eles disseram:

"Nóis só qué o dinheiro e celular... Dá meia volta e vai caminhando sem olhar pra nóis e passa tudo pra cá..."

Lentamente, peguei minha carteira e passei para eles. Um deles colocou a mão no meu bolso e pegou meu passe de trem, o outro já pegou o celular e o crachá da empresa, que estavam na minha bolsa. O que estava com a carteira disse:

"Aí, nóis só qué o dinheiro. Não vamos levar documento." - Então ele devolveu minha carteira.

Segurando meu braço eles perguntaram:

"O que tem aí dentro da bolsa?"

Então respondi:

"Tem livros, quer?" - Realmente só tinha livros e revistas.

"Livros? Vou pegar a bolsa e ver o que tem." - Um deles disse

"Ah, tem algumas moedas." - Lembrei que tinha algumas moedas

"Passa pra cá!" - Nesse momento passei as moedas para eles.

Foi aí que eles falaram para eu continuar caminhando reto, sem olhar para trás. Eles deram meia volta e caminhei, dando graças a Deus por nada de grave ter acontecido.

Nesse momento os mais "valentes" devem estar questionando: "Ah, mas eles estavam armados? Porque se eles estavam desarmados você poderia ter esboçado uma reação, já que eles aparentavam ter entre 17 e 21 anos"

A resposta é: Não sei se eles estavam armados, e não quis perguntar pois eles estavam com um pouco de pressa. =) A recomendação é não esboçar reação nesse tipo de situação, já começa que eu estava sozinho e eles estavam em três.

Mas enfim, graças a Deus não aconteceu nada de grave! O prejuízo financeiro foi pequeno.

Minha grande reflexão na volta para casa foi: Um dos motivos para existir o projeto Células de Estudo é evitar que pessoas cheguem nesse ponto, ao invés de roubar esses jovens deveriam estar trabalhando ou frequentando uma faculdade. O que aconteceu comigo só validou que é necessário lutarmos cada vez mais para mudar esse quadro! Não adianta esperar pelo governo, já que todos nós podemos fazer algo!

Existe o Ciclo da Miséria, da Inércia e da Marginalidade. Nós, do projeto Células de Estudo procuramos atuar quebrando todos esses ciclos provocando os participantes (crianças, jovens ou adultos) para lutarem pelos seus sonhos e pela perspectiva de uma vida melhor.

O Ciclo da Marginalidade (que é o ciclo em questão) consiste naquela criança que cresce em uma família muitas vezes desestruturada, onde lhe falta educação, orientação e (em alguns lares) carinho. Muitas vezes ela frequenta a escola mas não vai muito longe, pois não tem sonhos e nem uma perspectiva de futuro, onde acaba desistindo antes de terminar o ensino médio. Esse jovem encontra seu espaço caindo na marginalidade, adquire poder iniciando pequenos furtos e assaltos evoluindo para o mundo das drogas. O ciclo recomeça quando nascem os filhos desse jovem com uma outra jovem que, infelizmente, seguiu o mesmo caminho.

Sei que isso não se aplica a todos os jovens que estão na marginalidade, mas acredito que a maioria vem de um histórico muito próximo do comentado (família desestruturada e infância sem muitas perspectivas). Conheço alguns com esse histórico.

Que Deus nos dê força e sabedoria para continuar trabalhando na causa para evitar o efeito.

Fiquem a vontade para postar seus comentários, concordando ou discordando de mim.

Um abraço,

Alessandro.

9 comentários:

Andre Furtado disse...

Aconteceu algo semelhante comigo aqui em Recife há uns meses atrás. Nunca havia sido assaltado na minha vida, e até hoje não me recuperei: ainda estou meio paranóico, desconfiando de tudo e de todos, do motorista de trás ao cara que atravessa a rua logo mais à frente.

Apesar da sensação de impotência, o consolo é que enquanto sua vida continua e você vai ter excelentes oportunidades mais adiante, um cidadão desses se já não tiver levado um tiro já estará saindo no lucro.

Enfim, vamos fazer a nossa parte e ajudar essas pessoas! Não deixe uma coisa pontual dessas te abalar, isso (infelizmente!) é muito normal no nosso país hoje e ser assaltado (de novo) é apenas questão de tempo. Portanto, vivamos com nossas virtudes e recursos e lutemos por uma sociedade melhor!

[]s
-- AFurtado

Oscar Burd disse...

Alessandro,



A vida nos chacoalha para valer quando precisamos despertar ou dar um salto de consciência.



Concordo que temos algo importante a fazer quanto a criar um mundo melhor.



Apenas me parece que o nome Células de Estudos é muito acadêmico, intelectual e – por isso mesmo – muito afastado das pessoas mais simples.



Chego a arriscar a afirmação de que este nome realmente afasta as pessoas, pois pode passar a imagem, a idéiam, de uma coisa chata, ligada apenas a estudos.



Assim, um nome mais ligado à meta final pode fazer muito por vocês.



Que tal “Construindo um Mundo Melhor Juntos” ou algo nesta linha?

Mauricio Martins disse...

Alessandro,

É muito interessante que você chegue a essas conclusões e tenha tido essas reações depois de um episódio como esse. Mostra o quanto você está focado e envolvido pelo projeto, o que é o que vocês mais precisam para dar certo!

Concordo com o Oscar, de que o nome poderia ser mais acessível e "marqueteiro", mas, independentemente disso, o mais importante é ter pessoas como vocês chacoalhando pessoas como nós, que podemos fazer alguma coisa e não arrumamos nunca tempo para isso. Parabéns pela iniciativa!

Thiago Machado disse...

É Nano, eu gostaria muito de ficar completamente indignado, surpreso e inconformado com o te aconteceu, mas sinto os meus nervos dormentes... essas coisas nos fazem pensar profundamente na banalização da violência, hoje é corriqueiro, infelizmente o q aconteceu com vc, passamos a perguntar exatamente o q vc colocou no texto, tentando combater a agressão com mais agressão: "pq vc ñ reagiu?" essa é uma pergunta incomoda que muitas pessoas podem nem perguntar, mas pensam na possibilidade, tudo para salvar um patrimônio reduzido a valores que ñ comprando nem o pão nem a dignidade de ninguém...

Acho lamentável o modelo mental ao qual chegamos sem mesmo nos dar conta...

Tem uma música da Legião Urbana chamada Metrópole, um trecho da música diz assim: "é sangue mesmo não é mertiolato, todos querem ver e comentar a novidade! tão emocionante um acidente de verdade, estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre... vai passar na televisão... vai passar na televisão..."

A banalização da violência é o consentimento que damos para uma realidade cruel com quem não tem chance de mudar a sua própria situação...

a alguns anos atrás, 2, acho... entrei para a Célula com o intuito de transmitir o parco conhecimento q eu possuo, mas com o passar do tempo vejo que essa é realmente uma função social de resgate e salvamento de jovens, por vezes brutalizados pela realidade periférica...

Só peço saúde a Deus pra que a cada etapa possamos lapidar mais diamantes brutos e contribuir para uma sociedade mais justa.

Ainda bem que ñ te aconteceu nada Nanico, agora mais do q nunca quero fazer a diferença pra q coisas assim são sejam mais banais.

Anônimo disse...

...apesar do que te aconteceu, não pude deixar de ficar com uma sensação boa ao final da leitura!!! É com grande alegria que eu percebo que existem muitas pessoas que não tem esperado "ações do governo"!!! Quisera que mais e mais gente percebesse que também pode fazer sua parte para transformar essa triste realidade...afinal esses 3 jovens passaram por quantos "recursos sociais" antes de chegar na marginalidade???? Quantas pesssoas passaram por suas vidas sem fazer nada porque não era responsabilidade delas????? Quantos médicos, juizes, assistentes sociais, advogados, professores e etc.....????
Continue fazendo sua parte por um mundo mais humano, solidário e justo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Parabéns pela atitude durante este episódio lamentável e mais ainda pela forma que tirou suas conclusões. Devemos sim dar o melhor que temos, pois acredito que só assim, construiremos uma sociedade um pouco melhor habitável.

Marcos R.Balduino
Escola ADVPL - Advanced Program Learning - www.advpl.com.br

Yandalla disse...

Muito interessante seu blogger, ainda vou voltar aqui pra ler tudo com mais calma, mas achei muito bom mesmo.
Tenha um bom dia!!!

Anônimo disse...

alessandro, gostei como descreveu a realidade, infelizmente tem muita gente q nunca analisou rapidamente como vc fez aqui. qd morei na bahia em 98 pensava nisso qdo me deparava com cenários parecidos todos os dias. esses meninos são as principais vítimas no contexto com certeza e tbm não se dão conta q a vida pode ser diferente. concordo com seu pensamento de trabalhar na causa para evitar o efeito. sou prof de linux e projetos no momento. sanae.

Alessandro Almeida disse...

Sanae,

Boa noite!

Obrigado pelo comentário! Realmente é importante refletirmos sobre o assunto e analisar como podemos fazer parte da solução.

Um abraço,
Alessandro.